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Igreja Católica: Sete pontos de uma grande mudança que começa na Amazónia

É uma pequena-grande revolução: possibilidade de ordenar homens casados, um ministério próprio de mulheres dirigentes de comunidades cristãs, um rito litúrgico específico da Amazónia que incorpore a cultura local, a identificação da espiritualidade do “bem-viver” amazónico com as bem-aventuranças do Evangelho

Em sete pontos, o documento final do Sínodo dos Bispos católicos sobre a Amazónia traça um guião do que pode ser a reconfiguração da Igreja Católica naquela região do globo. Mas não é só esse texto a fazê-lo: no sábado, quando interveio de improviso no final dos trabalhos ou no domingo, na homilia da missa conclusiva, o Papa Francisco apontou já pistas e orientações de trabalho para lá do Sínodo e do seu texto final, confirmando várias das reflexões e propostas.

Percebe-se, em alguns pontos, que o documento final é um texto de compromisso, que hesita mais em alguns pontos (no papel das mulheres, por exemplo) do que noutros. Mesmo assim, os avanços são significativos e vale a pena tentar entendê-los a partir de algumas chaves de leitura.

O texto, que agora Francisco tomará como base para o seu documento pós-sinodal (o Sínodo é só uma estrutura de aconselhamento do Papa, sem poder deliberativo), tem 29 páginas e organiza-se em 120 parágrafos distribuídos por cinco capítulos. O primeiro leva o título “Amazónia: da escuta à conversão integral”; os restantes são dedicados sucessivamente aos novos caminhos de conversão pastoral, cultural, ecológica e sinodal, dimensões interligadas da “única conversão ao Evangelho vivo que é Jesus Cristo”, como se lê no parágrafo 19, “para motivar a saída às periferias existenciais, sociais e geográficas da Amazónia”.

1. A Amazónia no mapa: um “rosto desfigurado”

Na missa conclusiva de domingo, 27 de Outubro, o Papa referiu vários aspetos que motivam a preocupação pela situação da Amazónia – e que, em última instância, estiveram também presentes na decisão, anunciada há dois anos, de convocar esta assembleia especial do Sínodo dos Bispos: o desprezo pelas populações indígenas e as suas tradições “apaga as suas gestas, ocupa os seus territórios e usurpa os seus bens”, afirmou.

Francisco acrescentou ainda, na homilia: “Quanta superioridade presumida, que se transforma em opressão e exploração, mesmo hoje! Vimo-lo no Sínodo, quando falávamos da exploração da Criação, da população, dos habitantes da Amazónia, do exploração das pessoas, do tráfico das pessoas! Os erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimo-lo no rosto desfigurado da Amazónia.”

A convocatória do Sínodo colocou a Amazónia sob a atenção mundial. Se os incêndios dos últimos meses provocaram comoção mediática e alguma convulsão política, o “pulmão do mundo” foi trazido para o centro do debate político por conta da proposta de uma assembleia de bispos para debater os “novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Os bispos justificam a importância da escolha do tema logo nos primeiros números: há uma consciência aguda sobre a “dramática situação de destruição que afeta a Amazónia”, lê-se no n.º2. E concretizam, falando do “desaparecimento do território e dos seus habitantes e das ameaças cada vez maiores ao “coração biológico” da terra, que pedem “mudanças radicais” e urgentes. “Está provado cientificamente que o desaparecimento do bioma amazónico terá um impacto catastrófico para o conjunto do planeta!”

2. Ecologia integral: a “dívida” aos indígenas e o Papa a evocar Greta

No discurso de improviso, sábado ao final da tarde, ao concluir os trabalhos do Sínodo, o Papa evocou as “manifestações feitas por jovens, seja no movimento de Greta [Thunberg] ou de outros” e nas quais se joga o futuro. “Os jovens saíram com o cartaz: ‘O futuro é nosso’, ou seja, não decidam vocês pelo nosso futuro.” E não é só a Amazónia que está em perigo, acrescentou: o Congo é outro ponto sensível, tal como o Chaco argentino, por exemplo.

Vários parágrafos do texto final, no capítulo da conversão ecológica, são dedicados à “crise sócio-ambiental sem precedentes”. O texto identifica as ameaças ao bioma amazónico e aos seus povos (incluindo a “exploração ilimitada” e o “extrativismo predatório”), condena a criminalização dos indígenas só por defenderem os seus direitos, tal como a “atitude voraz e predatória” da actividade humana na exploração dos recursos, identifica os direitos humanos como parte do conceito de ecologia integral e “reconhece a sabedoria dos povos amazónicos acerca da biodiversidade”.

O documento pede ainda energias limpas, demarcação de terras e acesso à água, e propõe uma definição de pecado ecológico. Mas é no n.º 83 que surge a ideia politicamente mais ousada: “Como forma de reparar a dívida ecológica que têm os países para com a Amazónia, propomos a criação de um fundo mundial para cobrir parte dos orçamentos das comunidades presentes na Amazónia que promovem o seu desenvolvimento integral e autossustentado.”

No discurso de sábado, Francisco rendeu ainda homenagem “a um dos pioneiros desta consciência [ecológica] dentro da Igreja, o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla: “Foi dos primeiros que abriram caminho para criar esta consciência.” E foi do impulso por ele criado, que levou ao aparecimento de grupos e estudos, que “nasceu” a encíclica Laudato si, de Francisco.

3. “O grito dos pobres chegou da Amazónia”

“O grito dos pobres, juntamente com o da terra, chegou da Amazónia”, disse o Papa no domingo, na alocução do Angelus, depois da missa de encerramento do Sínodo. E agora não se pode já “fazer de conta” que não se ouviu. As vozes dos pobres “pressionam-nos a não permanecer indiferentes”, acrescentou, e a frase “mais tarde é demasiado tarde” não pode ficar apenas como um slogan.

Os pobres estavam no domingo na primeira fila da missa final: indígenas da Amazónia, pessoas sem-abrigo e marginalizadas da Europa, bem como pessoas com deficiência. “Faz-nos bem frequentar os pobres, para nos lembrarmos que somos pobres, para nos recordarmos de que a salvação de Deus só age num clima de pobreza interior”, afirmou Francisco. “Neste Sínodo, tivemos a graça de escutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade das suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios.”

No texto final, descrevem-se situações que confirmam a realidade de ostracismo social, económico e cultural em que vivem os povos amazónicos: migrações e deslocações forçadas, reduzido ou nulo acesso à saúde e à educação. Por isso, o texto final sugere a valorização de “iniciativas de integração que beneficiem a saúde dos amazónicos” e dos conhecimentos ancestrais da medicina tradicional, bem como a promoção da educação para a solidariedade e de uma educação pública intercultural e bilingue, e ainda a criação de uma rede de comunicação pan-amazónica, a par de redes de educação informal.

“Na Amazónia aparece todo o tipo de injustiças, destruição e exploração de pessoas a todos os níveis e destruição da identidade cultural”, disse o Papa na homilia da missa de domingo. “É possível olhar a realidade de modo diferente”, acrescentou. “E quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são escutadas, acabando talvez vilipendiadas ou silenciadas, porque são incómodas.”

4. Inculturação: um rito e um rosto amazónico, o “direito à cidade”

No capítulo da inculturação, o documento final do Sínodo volta a fazer uma proposta ousada, que surge precisamente nos parágrafos finais (116-119): “A elaboração de um rito amazónico, que expresse o património litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual” da região. O texto recorda os 23 rituais litúrgicos diferentes da Igreja Católica, “sinal claro de uma tradição que desde os primeiros séculos tentou inculturar os conteúdos da fé e a sua celebração através de uma linguagem o mais coerente possível com o mistério que se pretende expressar”.

É necessária uma resposta ao “pedido das comunidades amazónicas de adaptar a liturgia valorizando a cosmovisão, as tradições, os símbolos e os ritos originários que incluam as dimensões transcendentes, comunitárias e ecológicas”, sugere. Mas o documento propõe ainda uma Universidade Católica Amazónica, “baseada na investigação interdisciplinar (incluindo estudos de campo), na inculturação e no diálogo intercultural”. A tradução da Bíblia em línguas locais, a criação de estruturas e a formação local e inculturada do clero e dos diferentes agentes eclesiais são também assumidas ao longo do texto.

Neste capítulo, podem incluir-se ainda referências ao estilo de vida simples que os responsáveis católicos devem ter; ao papel da Igreja Católica no diálogo com os diferentes povos, com outras igrejas e comunidades cristãs e com estruturas da sociedade civil; ao diálogo com as tradições religiosas dos povos indígenas e afro-descendentes; à defesa do “direito à cidade” dos que vivem em espaço urbano; ao protagonismo dos jovens e ao desenvolvimento de uma “espiritualidade da escuta”; ou à perceção de que há “sementes” de Deus nos povos originários da Amazónia. “Abrindo, abrindo” caminhos, pediu o Papa no discurso de sábado.

5. Ordenação de homens casados: a maior oposição

O parágrafo 111 foi aquele que teve maior número de votos contra (41), na votação final do texto. Um sinal de que será o tema onde, para já, pode haver mais dificuldade para colocar a proposta em prática.

É nesse parágrafo que se propõe o que pode ser a consequência mais imediatamente visível deste Sínodo, e que pode vir a ter efeitos a nível mundial: “Propomos (…) ordenar sacerdotes homens idóneos e reconhecidos da comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, podendo ter família legitimamente constituída e estável, para sustentar a vida da comunidade cristã mediante o anúncio da Palavra e a celebração dos sacramentos nas zonas mais remotas da região amazónica.”

A formulação do texto, fruto de compromissos certamente, é menos assertiva do que a do documento de trabalho, que serviu para a discussão das três semanas de assembleia sinodal. Mas usa o mesmo argumento desse texto para justificar a necessidade de dar este passo: “Há um direito da comunidade à celebração, que deriva da essência da eucaristia” e muitas comunidades não podem celebrar missa senão uma vez por ano, ou até menos, quando um padre por lá passa.

Em diferentes dioceses católicas orientais (Médio Oriente, sobretudo), os padres podem ser casados. Se o caminho proposto para a Amazónia é o inverso – homens casados que podem ser ordenados – a realidade final será idêntica. Está aberto o caminho para repensar toda a questão do celibato.

Pensando já na articulação desta sugestão com outros aspetos da vida da Igreja, o Papa referiu, no discurso de sábado, que os religiosos deveriam ter um ano de experiência em regiões limítrofes, incluído no seu plano de formação. E que os que se preparam para o serviço diplomático da Santa Sé devem também estar um ano ao serviço de dioceses mais necessitadas.

6. Mulheres e novos ministérios: “Muito mais além”

Esta é uma proposta a meio da ponte, comparando com a reflexão que era feita no documento de trabalho: deve reconhecer-se o ministério da “mulher dirigente da comunidade”, tendo em conta que na Amazónia “a maioria das comunidades católicas são lideradas por mulheres”.

O próprio Papa afirmou, no sábado, que o que se diz no documento é “curto”. “Ainda não caímos na conta do que significa a mulher na Igreja [que] vai muito mais além da funcionalidade. E isso é o que tem de se continuar a trabalhar. Muito mais além.”

Neste capítulo, o documento final sugere ainda a restauração da comissão que trabalhou sobre o diaconato feminino e que o Papa garantiu, também no sábado, que irá fazer, com a garantia de escutar mais mulheres. E acrescenta que as mulheres devem poder aceder formalmente a outros ministérios já reconhecidos pela Igreja, como o de leitor ou acólito (que, na prática, muitas mulheres já exercem, porque muitos padres o querem ou permitem, apesar de canonicamente isso não estar previsto).

As sugestões acerca das mulheres – cuja voz “deve ser ouvida”, diz o texto – vão a par com os apelos à criatividade também no que respeita aos “caminhos novos” que é necessário percorrer na acção dos missionários e na procura e reconhecimento de novos ministérios para a Igreja. Aos indígenas não se permite de facto o acesso aos seminários, acusou o cardeal Sean O’Malley, e o Papa corroborou a ideia no discurso de sábado: “Uma verdadeira injustiça social”, disse. É precisa “criatividade em tudo isto dos ministérios e em tudo”, insistiu Francisco.

7. Caminho sinodal: os 87 mil, a revolução silenciosa e Gustav Mahler a falar

Logo no seu n.º 3, o documento final dá uma informação importante, recordando que a preparação do Sínodo envolveu todas as instâncias do catolicismo amazónico, incluindo indígenas: “Registou-se a participação de mais de 87 mil pessoas, das cidades e culturas distintas, além de numerosos grupos de outros setores eclesiais e dos contributos académicos”, e de organizações da sociedade civil. Foi um processo de “escuta da voz da Amazónia”.

Esta é uma das revoluções silenciosas e mais profundas que o Papa Francisco está a conseguir levar a cabo: com as suas iniciativas e propostas, ele libertou o direito à palavra e a noção de que tudo se pode debater, na liberdade e no respeito, defendendo o aperfeiçoamento do processo sinodal no catolicismo.

Dirigindo-se aos participantes, no sábado, ele agradeceu pelo “testemunho de trabalho, de escuta, de procurar pôr em prática este espírito sinodal”. “Estamos num bom caminho. E estamos entendendo que significa discernir, que significa escutar, que significa incorporar a rica tradição da Igreja aos movimentos conjunturais”, acrescentou, para citar: “Alguns pensam que a tradição é um museu de coisas velhas. Gosto de repetir aquilo que [o compositor] Gustav Mahler dizia: ‘A tradição é a salvaguarda do futuro e não a custódia das cinzas’.”

O tema da sinodalidade – palavra de origem grega para dizer “caminhar juntos” – foi mesmo um dos que teve a maioria como hipótese para o próximo Sínodo dos Bispos. E no documento final vários parágrafos falam da importância deste processo de participação e escuta, bem como da necessidade de criar estruturas sinodais regionais mais próximas e eficazes.

Francisco, também no discurso final, disse que quase não seria necessário um novo documento por ele assinado, como que sublinhando que o importante é o documento votado no sábado. Mas admitiu que pode ser bom haver uma palavra sua sobre “o que viveu” no Sínodo. “Eu queria escrevê-la antes do fim do ano, de tal modo que não passe muito tempo, tudo depende do tempo que tenha para pensar”, esclareceu.

Obviamente, nenhuma destas mudanças será fácil de pôr em marcha. Nem dentro da Igreja, onde o coro dos críticos ao Papa crescerá ainda mais com os diagnósticos, sugestões e propostas do texto. Nem fora, onde os poderosos interesses financeiros, industriais e políticos instalados não deixarão que a voz do Papa ou a dos cristãos se intrometa nos negócios.

Um artigo do parceiro

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