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Carros a diesel vão acabar? ACAP afasta cenário e diz que isso “é um desejo” do ministro

Quota tem vindo a recuar, mas a quem ganha são os veículos a gasolina. Vendas de carros elétricos dispararam 148% no último ano, mas pesam apenas 1,8% do mercado.

Os carros a diesel estão condenados? A polémica estalou com as declarações do ministro do Ambiente a garantir que os veículos a gasóleo vão perder o seu valor comercial daqui a quatro ou cinco anos. A resposta não se fez esperar e o setor reagiu. “Estas declarações podem resultar de um desejo do ministro, mas não têm qualquer correspondência com a realidade”, diz ao i o secretário-geral da Associação Comércio Automóvel de Portugal (ACAP).

Hélder Pedro lamenta as afirmações e acusa Matos Fernandes de “estar a interferir no dia a dia das empresas da indústria automóvel”. E lembra ao governante o peso desta indústria: “O ministro, ao proferir esta declaração, deveria ter tido em consideração que a indústria automóvel é a principal indústria exportadora em Portugal e que o setor automóvel é o principal contribuinte líquido do Estado, ao ser responsável por mais de 25% do total das receitas fiscais”.

Hélder Pedro vai mais longe e afirma que não está prevista qualquer alteração de legislação, a nível europeu, que implique uma desvalorização dos veículos a diesel nos próximos anos. Ainda assim, reconhece que o peso dos carros a gasóleo nos últimos anos tem vindo a cair, com especial relevo para os últimos meses. E os números falam por si. A venda de ligeiros de passageiros com motor diesel em Portugal só ano passado caiu 10,4% face ao ano anterior, tendo sido registados quase 122 mil veículos com este motor.

Com esta redução também a quota de mercado sai beliscada e fica bem longe dos números passados. Mas vamos a valores. A quota de mercado dos carros a gasóleo caiu para os 53,25% em 2018, quando em 2017 os diesel novos representavam 61%. E há cinco anos, três em cada quatro carros eram a gasóleo (76,8%).

Um cenário que não surpreende o secretário-geral da ACAP, garantindo que esta tem sido a tendência europeia e Portugal não fica alheio a esta realidade. “Há uma tendência europeia de abandono progressivo dos motores diesel na Europa e Portugal segue o mesmo padrão”, diz.

Mas lembra que, ao contrário do o ministro do Ambiente pretende, esta perda de quota do gasóleo vai para os carros a gasolina e não para os elétricos que continuam a ter pouco peso no mercado nacional.  O preço e até o retrato do país – que não se limita a Lisboa e Porto e o tipo de acessibilidades pesam na decisão dos automobilistas na hora de escolher carro – ditam esta tendência. “Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior percentagem de vendas de veículos elétricos, no total do mercado, tendo havido um crescimento de 148%. Mas esta percentagem ainda é de 1,8% do total do mercado”, salienta.

Ainda assim, Hélder Pedro garante que a indústria automóvel está “ fortemente empenhada na redução de emissões dos veículos. A prova deste compromisso é de que 40% dos novos modelos anunciados para 2021, já terão a opção da motorização elétrica. Todavia, esta transição irá ser feita de forma gradual”.

 Mais preocupante do que os carros a diesel é, para Hélder Pedro, a necessidade de voltar a implementar o programa de incentivo ao abate de veículos como forma de renovar o parque automóvel. “O nosso parque automóvel de ligeiros de passageiros tem uma idade média de 12,6 anos, existindo em circulação 700 mil veículos com mais de vinte anos. É lamentável que o ministério do Ambiente tenha sucessivamente rejeitado a implementação deste programa”, diz.

Cerco apertado

A par da queda das vendas também os carros a diesel estão a ser alvo de maiores restrições no que diz respeito à circulação. No entanto, segundo a ACAP, isso não significa o seu fim. E dá como exemplo o que está ser feito em termos de regulamentação europeia. “Desde 2018 todos os veículos a diesel passam por um teste de homologação mais rigoroso no âmbito da Norma Euro 6d-TEMP, que terá uma nova fase em setembro deste ano. O que prova que, no âmbito da regulamentação comunitária, a aposta é na redução das emissões dos veículos diesel a lançar no mercado europeu nos próximos anos”. salienta.

A verdade é que os passos de abandono foram dados primeiro na Europa e a opinião é unânime junto de vários especialistas: a tendência é para continuar a agravar-se. Um cenário que é refletido no relatório Cepsa Energy Outlook 2030, segundo o qual apenas 15% dos carros novos em 2030 serão a diesel. Nesse ano, os carros a gasolina deverão representar entre 30% e 35% do mercado, ainda assim, abaixo dos 40,3% verificados entre janeiro e abril deste ano. A ganhar terreno estarão os híbridos (35%) e os elétricos (15%). Quotas de que Portugal ainda está muito longe.

Da Europa tem chegado o mesmo aviso. Para a comissária europeia da Indústria, Elzbieta Bienkowska, “os carros a gasóleo estão acabados” e consistem numa “tecnologia do passado”. A fraude que abrangeu 11 milhões de veículos de carros a gasóleo do grupo Volkswagen foi o ponto de viragem na perceção de Bruxelas em relação a estas motorizações.

Enquanto Bruxelas se debate com formas de combater os carros a diesel, já há cidades europeias que deram o pontapé de saída nesta matéria. Hamburgo foi a primeira cidade a proibir parcialmente o tráfego dos veículos a diesel mais poluentes. A medida entrou em vigor a 31 de maio e aplicou-se a zonas, onde os níveis de dióxido de nitrogénio ultrapassam os limites estabelecidos pela UE. Quem violar esta norma arrisca-se ao pagamento de uma multa no valor de 75 euros. As restrições não ficam por aqui. Copenhaga, na Dinamarca, pretende proibir a circulação de carros a diesel a partir deste ano. Madrid prevê restringir o acesso dos carros a boa parte de sua área central até 2020. Já Paris quer banir todos os veículos poluentes até 2030 e reservar algumas ruas apenas para a circulação de automóveis elétricos. Também Londres alinhou pelo mesmo diapasão, primeiro ao cobrar uma taxa de 30 libras para entrar no centro da cidade, medida que depois quer alargar ao resto da cidade. 

Origem
Jornal i
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